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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

FREY - boa safra Argentina


Eis mais um lugar no mundo onde a escalada pode ser desfrutada de diferentes formas e por algumas vidas...

Muitos escaladores brasileiros já estiveram por lá e não se cansam de lembrar deste marcante lugar da América do Sul...
Nessa temporada, inclusive, cruzamos com muitos conterrâneos e uma diversidade enorme de nacionalidades em busca dos trekkings e escaladas que esse belo cenário internacional oferece.

--------------- (Clique em cima das fotos para ampliá-las)

Em lugares como esse, a variedade de elementos transcende o simples desejo de escalar vias longas após anos escalando vias esportivas. A experiência como um todo é o que marca, passando pelo clima e os visuais, o camping selvagem na beira da laguna, as aproximações, o comprometimento e a beleza das vias, entre tantas outras nuances.

Sem dúvida, senti muita complexidade aqui...


Assim como meus favoritos vinhos, o Frey apresenta muito corpo, transpõe camadas pouco a pouco, revela-se mais e mais a cada gole... "É daqueles que tem que respirar para ficar melhor!!!"

Em alguns casos gera estranheza, dúvida, soprando a príncipio um tanino forte demais... Em outros casos, adormece tudo no primeiro gole, para preenchernos com todo seu sabor e complexidade ao longo do experimento...


Para saborear verdadeiramente escaladas e aventuras como as que o Frey oferece, é preciso mergulhar realmente em seu espírito e sentir cada nota emitida pelo lugar. Não basta querer desvendar movimentos, descobrir formas de proteção na rocha, conquistar cumes, pois são muitas as suas peculiaridades.
E quanto mais entro em contato com esse 'tipo de uva', mais ela me conquista...


Nessa vivência, muito frio versus muito calor;
...neve, morainas, ventos e sopros patagônicos que mantêm-se na memória por um bom tempo;
...água cristalina em abundância, ora petrificante, ora restauradora e refrescante;
...vistas grandiosas, ora arrebatando a alma, ora amedrontando;
...fendas, diedros, regletes e muitas cordadas;
...lastro não opcional composto por nuts, friends, camalots, mochila, e por aí vai...;
...aproximações exigentes passando por riachos, ora consumidos pela sede, ora ignorados e vencidos pelo cansaço...;
...ora achados, ora perdidos!
...jogo de gamão, latas de atum, sopas, chás, massas desidratadas, vinho sempre...
(e chocolates de Bariloche, merecidamente!)

E assim, apaixonada por esse mix intenso e encorpado, saboreei minhas férias de janeiro em Cerro Catedral, Argentina, somando mais uma marcante vivência à minha vida.

Vamos, então, aos nomes de uvas e elementos trabalhados para que eu chegasse a essa boa safra:
"Além de vinho, atum enlatado, azeite extra-virgem e pão, ofereça-me vias longas e verticais, com regletes potentes, de preferência longe da civilização e sem luz elétrica...", disse eu a meu companheiro de escalada Filippo.
"Já sei que lugar é esse", respondeu-me ele... "Com algumas coisitas a mais"...

Coincidentemente, meus amigos Carla e Alex planejavam uma longa trip de carro para passar o Natal, reveillon e férias de janeiro, conhecendo e escalando alguns picos na Argentina. Além das Cataratas, Glaciares e Pinguíns, os dois ficaram duas semanas em Chaltèn, com poucas janelas para escalar, mas percorrendo algumas trilhas e encontrando também muitos brasileiros.
De lá, subiram para Bariloche onde nos encontraríamos após o reveillon. Qual foi nossa surpresa quando os dois nos esperavam já no aeroporto de Bariloche!
E assim, além de mais amigos, tivemos um carro que facilitou nossa vida!
(É possível locomover-se de ônibus facilmente também!)


Fizemos o supermercado para os dias de escalada que tínhamos no Frey, comemos muito chocolatinho, organizamos mochilas, contratamos dois cavalos para carregar metade de nosso equipamento e comida (Pirincho - $170,00 pesos por cavalo), e deixamos o carro no estacionamento público de Cerro Catedral, de onde sai uma das trilhas (que levou 6 horas graças a muita parada para fotos!)




Tivemos sorte com o dia de sol na subida. Armamos acampamento e planejamos para o dia seguinte uma escalada em três, para nos aclimatar...
Seguindo a previsão do tempo, ventava pacas neste dia e as nuvens patagônicas carregadas surgiam atrás das agulhas a oeste, de onde vêm as tormentas...

Na fúria de apertar, fomos até a base da via Diedro de Jim (Agulha FREY), tentamos a primeira cordada, mas o frio estava de lascar e começou a nevar...

"Escalada na Patagônia é assim... ", disse tranquilamente meu companheiro...
E assim, descemos da via e voltamos eu, Alex e Filippo para o acampamento à espera de uma janela, que não estava na previsão para o dia seguinte.

Mas ele amanheceu ensolarado...
E lá fomos eu e Filippo direto para a Agulha El Tonto, realizar a via Meteoritos sobre a qual ele marketeava desde o Brasil: "Alucinante, Filé, você tem que conhecer!"
Desde o acampamento, levamos cerca de uma hora e meia de caminhada até a base da parede.


Para acessar a via Meteoritos, que começa em um platô a 50 metros do chão, escalamos a via Le Gran Tom, meu primeiro contato autêntico com as agarras perfeitas do Frey.
Já na Meteoritos, guiada pelo Filippo, finalmente entendi a empolgação com a linha, principalmente na saída do diedro para a reta final que passa por uma fenda alucinante, com o elemento adicional do vento soprando fooooorte!
"Intenso."


E assim, chegamos ao cume dEL TONTO !



No dia seguinte, friaca, neve e muito vento, sem chances de desfrutar de agulha alguma....
Dia de descanso bem vindo!


O outro dia amanheceu com sons que me pareciam 'boeings' sobrevoando o Valle...
"Existe uma parede chamada La Tapia no Valle do Campanille que fica abrigada do VENTO", lembrou o Alex.


Tocamos para o Valle e chegamos à base desta parede.
Após analisarmos o croqui, optamos pela clássica Jungle en Folie, com crux de 6c, (tipo um 7c do Brasil - a graduação do Frey é mais forte que a francesa).


O frio estava forte e o Alex abortou na base, já que em 3 ficaríamos muito tempo 'estacionados' nas paradas.
Via linda, mas com a rocha geladassa eu e Filippo também paramos no fim da primeira cordada!

O dia seguinte estava um pouco menos frio, ainda com bastante vento. Sendo assim, optamos em voltar à La Tapia para fazer cume por uma via onde eu também me sentisse segura em guiar em móvel.
A 'Jungle' estava ocupada por um casal de norte-americanos então escolhemos uma linha chamada Vertical Robbery um pouco mais ao lado...

Com o rack de móveis completíssimo, me preparei fisica e psicologicamente para guiar a primeira parte, como sempre, não economizando peças...


Delícia de sensação...
No final dos primeiros 30 metros, todos os friends roxinhos e amarelos já tinham sido usados, mesmo estando duplos no rack...
"Isso que dá estar acostumada a proteção no pé..." hehehe

Uma fenda muito louca, bem casca, seguia dali, e como não havia mais peças compatíveis à fenda para proteger, viva a parada! Avistei uma chapeleta em cima de uma laca para servir de 'poltrona' e ali me instalei para segurar o Filippo.
Dois 'camalotzões' serviram para compor a equalização + back-up... Modéstia parte e graças à formação rochosa, foi uma paradinha digna de bivaque!!! ehehe"
"Só espero que essa laquinha não seja um daqueles casos em que o platô inteiro se solta da parede!!! ", pensei eu lá com o resto dos meus botões...

Tocamos pra cima as outras 3 cordadas da via e escalaminhamos o restinho até o cume!
Super Alto Astral!!!

Nessa mesma noite, o vento diminuiu e o céu estrelado anunciava a entrada de uma janela de tempo bom...
Guiados por ela, programamos uma escalada mais forte no COHETE LUNAR (150 metros).
Acordamos com um dia intensamente azul e partimos eu, Fi e Alex para a caminhada de 2 horas rumo à base da via Objectivo Luna, do outro lado do Valle do Campanille.


A primeira cordada é toda em móvel, deliciosa, com altas agarras oriundas de uma fenda com pegas potentes, quase toda em oposição!


A via oferece algumas chapas na 2ª e 3ª cordadas de face, com movimentos bem delicados. O Alex emendou essas duas, mandando muito bem na guiada!!!
Depois, lá fomos nós para a cordada de 4 grau, com trepa pedra e algumas fendas fáceis (um pouco confuso no croqui)...


Após algum tempo procurando, encontramos a base da enfiada seguinte, um lindo diedro passando no final a uma aresta incrível... Altos visuais.
O crux vem em seguida: um domínio negativo em fenda, passando depois para uma face vertical cheia de regletes. Eu estava bem cansada nesse trecho e após as cordadas anteriores, sofri para fazer o movimento de força...
E finalmente chegamos ao módulo lunar, um bloco gigantesco apoiado no topo da agulha com uma enfiada curta e muito linda, toda em regletinhos bons, que leva até o cume!!!

Em 3 escaladores levamos cerca de 8 horas de escalada até o ponto mais alto do COHETE LUNAR!


O rapél é feito pela face oeste da agulha, seguindo por uma 'destrepada fácil' por trás da Agulha LA BANANA (ao lado do Cohete).
Para quem não conhece, dá para se perder fácil.... Principalmente se você tiver que iniciar a desescalada à noite como nós...

O último dia amanheceu com um sol escaldante, que somado ao cansaço muscular e geral, me levou direto para dentro do lago, permanecendo alguns segundos imersa!
Dia de descanso total! E viva "o banho"!!!

No dia da partida, café da manhã no refúgio Frey ($25 pesos, com geléia e pão caseiro, e o básico café com leite ou achocolatado).... Boa opção para encarar as 4 horas de trilha rumo à civilização....

Em 'Brasiloche', jantar de despedida dos companheiros Carla e Alex que estão subindo para o Brasil de carro! Saudades!!!

Quem tiver interesse em acessar uma matéria brasileira bem legal sobre escaladas del Frey, pode encontrar na edição n.6 da revista Headwall:
www.revistaheadwall.com.br

E como despedida, nada melhor do que o autêntico tango Argentino no espetacular Faena!



Valeu galera! Já estamos trabalhando a próxima safra!
Agradecimentos enormes ao Filippo Croso e Alex Gessner!!!!

Hasta La vista,


Janine

4 comentários:

Alvaro Alvares disse...

Belo texto, cheio de intensidade!

Natália disse...

Jan, li com a mão suando!!! Eu e a Dani temos planos de ir pra lá em breve... terá que nos passar os betas!!! Bjs querida!! Linda viagem!!!

Mauro Chiara disse...

Acho que estive no Frey na mesma época que vocês, tempo ficou ruim no meio de janeiro......

Valeu!

Mauro Chiara disse...

Acho que estive no Frey na mesma época que vocês, estava frio em janeiro por lá....

Abs,

... "Superfície azul do céu, asas em curva de dores, Fernão Capelo levanta e voa, porque voar é importante, mais que comer e viver.

Caro é pensar diferente, viver em infinitos, voar dias inteiros só aprendendo a voar. Gaivota que se preza tem de sentir as estrelas, analisar paraísos, conquistar múltiplos espaços.

Gaivota que se preza precisa buscar perfeição. Importante é olhar de frente, em uma, em dez, cem mil vidas.

... nada é limite: voa, treina, aprende, paira sobre o comum do viver.

Se o destino é o infinito, o caminho é nas alturas!"

(Fernão Capelo Gaivota)

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"Time stand still... I'm not looking back, but I want to look around me now, see more of the people and the places that surround me now...Time stand still...Freeze this moment a little bit longer, Make each sensation a little bit stronger, Experience slips away...The innocence slips away..."

(Rush and Climbing - since 1993)

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